Existe um mito no mercado de projetos que precisa ser quebrado: a ideia de que a comunicação entre diferentes softwares de modelagem é falha, resultando em arquivos “mortos” ou blocos não modificáveis. A verdade é que a interoperabilidade é uma realidade absoluta. É perfeitamente possível projetar em uma plataforma com filosofia OpenBIM, como o Archicad, e entregar para o seu parceiro, cliente ou engenheiro um arquivo no formato do Revit que seja 100% editável.
Se você já passou pela frustração de exportar um modelo e ver o outro profissional receber apenas um grande bloco genérico de 3D, este guia definitivo vai resolver o seu problema.
Abaixo, detalhamos o fluxo de trabalho completo para garantir que paredes, lajes, portas e janelas saiam do Archicad e cheguem ao Revit prontos para serem alterados, ajustados e detalhados.
1. A Filosofia por Trás da Exportação: OpenBIM na Prática
Antes de apertar qualquer botão, é fundamental entender como os dados conversam. O Archicad trabalha sob a premissa do OpenBIM, o que significa que ele foi desenhado desde o início para se comunicar com outras ferramentas do mercado, diferentemente de ecossistemas mais fechados.
Para que a mágica aconteça e a editabilidade seja mantida do outro lado, precisamos garantir que a “linguagem” exportada seja exatamente a mesma que o software de destino consegue ler. Isso exige organização no modelo de origem.
2. Preparação do Modelo no Archicad
A exportação perfeita começa muito antes de salvar o arquivo. Um modelo desorganizado no Archicad resultará em uma bagunça no Revit.
- Classificação de Elementos: Este é o passo mais crítico. O Archicad precisa saber o que é cada elemento para avisar ao Revit. Selecione suas paredes e garanta que, nas definições, a Classificação do Archicad esteja definida corretamente como “Parede”. Faça o mesmo para lajes, pilares, vigas e coberturas.
- Limpeza do Arquivo 3D: Crie uma vista 3D específica para exportação. Desligue vegetais (layers) que não são necessários para a disciplina de destino, como mobiliário de decoração solto, vegetação ou elementos 2D que possam poluir o arquivo final.
- Materiais de Construção: Garanta que os materiais estejam bem definidos, pois eles ajudarão o software de destino a mapear as espessuras e hachuras corretamente caso o usuário do Revit precise extrair quantitativos.
3. Configurando a Exportação (O Caminho do Arquivo Editável)
O Archicad evoluiu muito na sua comunicação direta. Existem dois fluxos principais para garantir a editabilidade: a exportação direta para RVT/RFA (disponível nas versões mais recentes) e o uso otimizado do IFC através de mapeamento. Vamos focar no processo que garante a tradução de geometrias para famílias de sistema editáveis.
Passo a Passo da Configuração do Tradutor
Para que o arquivo chegue editável, a geometria precisa ser interpretada não como uma “Malha” (Mesh) ou “Modelo Genérico” travado (BREP), mas como geometria paramétrica.
- Acesse o Menu de Salvar: Vá em
Arquivo > Salvar Como(ou utilize o Publicador para automatizar o processo). - Escolha o Formato: Selecione o formato IFC (que será lido via plugin da Graphisoft no Revit) ou, dependendo da sua versão e necessidade direta, o formato RVT (se disponível e adequado para o nível de detalhe desejado). Para a garantia máxima de transformação em elementos nativos e editáveis, o fluxo via IFC com o Archicad Connection Tool é historicamente o mais robusto.
- Ajuste o Tradutor de Exportação:
- Abra as opções do Tradutor IFC.
- Na aba de Conversão de Geometria, certifique-se de que a opção de exportar elementos paramétricos esteja ativada. Evite a opção “Exportar tudo como BREP” (Boundary Representation), pois isso congela a geometria e impede que o usuário do Revit altere a altura da parede ou a espessura da laje.
- Na aba de Mapeamento de Tipos, garanta que as classificações do Archicad estão direcionadas para as categorias corretas do IFC (IfcWall, IfcSlab, IfcWindow).
4. A Recepção no Revit: O Segredo do Sucesso
Aqui está o ponto onde 90% dos profissionais erram. O problema muitas vezes não está na exportação do Archicad, mas na forma como o usuário do Revit abre ou importa o arquivo.
Se o usuário do Revit simplesmente “Vincular IFC” ou “Importar CAD”, ele corre um grande risco de receber um modelo engessado.
A Abordagem Correta para o Parceiro
Para que o seu parceiro de projeto abra o modelo de forma 100% editável, ele deve seguir estas diretrizes:
- Uso do Add-In Archicad Connection: A Graphisoft disponibiliza um plugin gratuito para o Revit chamado Interoperability Tools (ou Archicad Connection). Este plugin possui uma função chamada “Improved IFC Import”.
- Transformação em Famílias do Revit: Quando o usuário do Revit utiliza este plugin para abrir o IFC gerado pelo Archicad, o algoritmo não apenas lê a geometria, mas tenta ativamente transformar as “IfcWalls” em “Basic Walls” (Paredes Básicas) do Revit. As “IfcSlabs” viram “Floors” (Pisos) nativos.
- Edição Liberada: Como resultado desse fluxo, ao clicar na parede, o seu parceiro verá as propriedades ativas. Ele poderá puxar as setas de controle, alterar a altura desconectada, editar o perfil, inserir novas portas nativas do Revit nessa mesma parede e modificar a composição das camadas estruturais. O arquivo está 100% editável, exatamente como você atestou na sua máquina.
5. Cuidados com Elementos Complexos
Apesar de paredes, lajes, pilares e coberturas migrarem de forma transparente e paramétrica, é preciso ter atenção com elementos desenvolvidos de maneira muito livre.
- Morphs e Formas Complexas: Elementos modelados com a ferramenta Morph (Forma) ou operações complexas de sólidos tendem a chegar ao Revit como “Modelos Genéricos”. Eles manterão a geometria perfeita, mas não serão “paredes paramétricas”. Use as ferramentas nativas para a sua finalidade exata sempre que possível.
- Portas e Janelas: Elas chegam perfeitamente posicionadas e cortando a parede. Se o parceiro precisar substituir por uma família (.rfa) específica dele, a abertura já existe de forma nativa na parede editável, tornando a substituição um processo de poucos cliques.
Conclusão
A barreira entre os softwares é um obstáculo que já foi superado pela tecnologia. Modelar no Archicad, tirando proveito de toda a sua agilidade de projeto e foco na arquitetura, não impede em nada a colaboração profunda com equipes que exigem arquivos no formato de destino concorrente.
Com o modelo devidamente classificado e configurando a exportação para manter a parametrização viva, você entrega um arquivo limpo, leve e totalmente manipulável, provando na prática que a interoperabilidade eficiente e o fluxo OpenBIM elevam o padrão das entregas no mercado.

Deixe um comentário